Segunda-feira, 25 de Setembro de 2006
(31) MOSCA (II)

Sim, este é o meu olho !

Hoje, dia de saída,  não estou no emaranhado pesadelo, mudado em grande mosca e na ansia de voar além das grades.

E, com agrado e sem menosprezo pelo magnifico olho da mosca, vou apontar-lhe um senão.

Da paleta universal não retirou o matiz e, o repetir das imagens, não garante vantagens.

 Se fosse mosca, calcula, nem se me dá na lembrança, quando olhasse para ti, meu amor, a ver-te sem cor, repetida, como névoa esbatida de quem anda fugida.

Quero ver-te toda inteira, nesse teu jeito de ser, com esse brilho nos olhos onde verdejam os prados e o lago de água mansa onde navegas na esperança.

Como podia encontrar-te, repetida e sem cor ?

Mergulharia na dor de perder o teu amor!

E, depois, outro senão.

Será que a mosca tem coração ?

Lá ter terá,  certamente.

E cabe nele a ternura, a compaixão, o amor e até talvez a loucura ?

Na dúvida, digo que não.



publicado por solcar às 10:33
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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006
(30) SINAIS DOS TEMPOS

Dizem que o filósofo disse:

Penso, logo existo.

Eram outros os tempos. O tempo, generoso, concedia tempo no tempo e o homem era porventura menos ambicioso.

Pesem embora as vicissitudes de que todas as épocas são prenhes, o homem permitia-se parar, rodear o erudito e escutar o seu dito ou, mesmo que de silencio se tratasse, meditar, atapetando o caminho da reflexão.

No tempo de hoje, e em abono de suposto conforto, o sistema agilmente se perverteu e no primado da busca do supérfluo, o essencial é secundário.

Tu tens ?  Eu também tenho de ter... não importa o que seja.

Os próprios eruditos, creio que existam alguns, enviesam e aproveitam-se da credulidade dos seguidores na peugada do mesmo objectivo.

Assim nestes tempos de verdadeira dúvida na busca, de insegurança pessoal, haveria

necessidade de converter o dito

Viesse o filósofo a este tempo e decerto aconselharia::

Penso logo hesito.

E aos verdadeiros pessimistas:

Penso logo desisto.



publicado por solcar às 10:33
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Sexta-feira, 8 de Setembro de 2006
(29) MOSCAS

Deixem-me adivinhar ! Bichinho chato e nojento!

Pois, pois, eu também pensava assim e ao ouvir o zunido para a guerra me armava (pufs-pufs e mata moscas), sabendo logo à partida estar de causa perdida.

Mas um dia lá cismei, da arma passei à lupa e na pesquisa mergulhei.

Miles de espécies, miles de formas, miles de cores.

Belo equipamento, olhos multifacetados, máquina de voar completamente computorizada e com soft a garantir perfeita e segura acrobacia, grande estabilidade no poiso, graças ao número de patas e sua fofura e ainda, pasmem, extrema elegância e finura na alimentação, sempre sugando, pela palhinha, a matéria que os seus pés gustativos aprovam. Completam, logo,logo, com apurada higiene íntima.

Predadores aos montes, aéreos e terrestres e, nestes, lugar cimeiro às aranhas e seus engenhos de pescar

Criar, destruir, criar, destruir e por aí fora...

Todavia, e malgrado este desbaste, a capacidade e rapidez reprodutiva bate todos os recordes, deixando inibido qualquer enfatuado macho latino. Os ovos, depositados em matéria orgânica a decompor, eclodem passadas 24 horas.

Este porventura o segredo da sua capacidade de fuga à extinção

Além disso elas ganharam lugar à nossa mesa, não só planando e pousando na comida, mas também integrando o prosear:

·         pareces uma MOSQUINHA morta

·         estavas como MOSCA no mel

·         come a sopa, olha a MOSCA

·         o meu chefe hoje estava com a MOSCA

·         que raio de MOSCA te picou

 e até na política se metem.  Ah,Ah ?? Não se riam, pois isto afirmo sem rodeios; a experiência é pessoal e a fonte fidedigna. Foi o caso que nas últimas eleições, cumpridor e no intento de acertar, mas indeciso no voto, pedi conselho a aclarado técnico na matéria. Estivesse eu descansado, respondeu, votasse até de olho fechado e plantasse a cruz aos fados da sorte, convicto ele estava que a trampa era sempre a mesma, só as MOSCAS  mudavam.

Dizem ser o dito corrente, só que ao corrente eu não estava e, embora reconheça às moscas esse mau hábito, tenho aqui de confessar, ser a metáfora desagradável para elas.

Aprendi que são vitais, esclarecido que fui.

Sem moscas a terra estaria coberta por plantas e animais mortos.

Tenho de fazer agora uma sutura, por estar decerto a abrir feridas nos poucos leitores dos meus escritos, tendo alguns já comentado a minha aparente solidão.

Para já os descanso, em solidão eu não estou, tenho o quarto cheio de moscas.   Em vez de rede mosqueira, vejam só, gradearam a janela. De erro crasso se tratou, quase cabe minha cabeça e as moscas bem transitam.

Aos leitores ainda atentos, reitero as minhas desculpas, mesmo sem ser meu intento tenho aqui de terminar.

Chegou o meu controlador. Topou que estou com a MOSCA e atascou-me dose dupla para ficar a dormir.

Dormir ???  Claro seria óptimo, não fossem os pesadelos.

Logo fico enorme MOSCA imune aos predadores e a esvoaçar pelo quarto.

Tentativa malograda de passar aquela grade... e voar em liberdade.

 

 



publicado por solcar às 11:38
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