Sábado, 14 de Outubro de 2006
(35)CONVERSAS DE VIDA E MORTE

 Numa dessas excursões gratuitas em volta do Sol que diariamente a Terra nos oferece, podemos observar um leque de maravilhas.         

 

Tudo o que nos rodeia e os seres nossos contemporâneos, são, na realidade, geniais obras-primas.

 

Extasio mas o artista confunde-me! A confusão é legitima na medida em que não me é fácil compreender um criador, supremo artista, destruindo obras tão perfeitas para criar de novo, e recuso o argumento duma lenta evolução. 

 

Porquê o nasces, vives e morres ?   A forma será diversa; a sina a mesma:

 

NASCES  entre  milhões de hipóteses para que algumas resultem e entras na cadeia alimentar;

 VIVES  dependendo dos teus contemporâneos e em regra devorando-os;

 MORRES continuando na cadeia alimentar.

 

E, como se não bastasse, cria o animal humano, o mais animal de todos, concedendo-lhe favores e ferramentas que o fazem supor superior, quando na essência se reduz à mesma condição e tem por acréscimo a sensibilidade que lhe permite elaborar os sentimentos e emoções, e ainda a possibilidade de, por vontade própria, interromper o ciclo imposto, o que nos outros animais, e sem prova cientifica, parece acontecer apenas numa certa espécie de baleia e em algumas aves que ingerem sementes venenosas.

 

É entre esse misto de beleza e dor que balança o homem e os seus valores, superando uns a condição, outros não.  Destes, grande parte, sem saber que nas suas ferramentas tem a chave dos próprios problemas, tenta que o outro compreenda o seu sofrimento, aproxima-se, não tanto para que lhe indiquem o caminho, mais para que aceitem e compreendam a sua natureza de seres em crise e, se tal não acontece,  o ponto de ruptura é atingido e a saída do ciclo da vida pode surgir como solução única.

 

A ajuda atempada, em resposta ao seu grito, evita o  sedimento de crises sucessivas mal resolvidas que os poderão conduzir à intenção suicidária e sua concretização.

 

Muitos fomos ao fundo do nosso poço e muitos saímos, sempre com feridas por sarar.   Poderia fazer aqui o relato duma viagem ao fundo do meu e não o faço por razões várias, algumas capitais.

Receio encontrar lá em baixo a serenidade que me acomode, sem regresso, e teria ainda de me despir demasiado e o frio vai de rigor.  

 

Além disso, se aqui chegaram,  já leram 397 palavras e  não quero abusar da vossa paciência.                                                                     

                                                                             ATÉ



publicado por solcar às 12:48
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(34) OS SÁBIOS

OS SÁBIOS

 

Privei com dois cientistas tão diferentes e tão semelhantes que não resisto a recordá-los.

Ambos ambiciosos; ambos tristes; ambos esqueciam ser mortais.

Um julgava saber tudo.

Ansioso, continuava  mergulhado na amargura  da busca do conhecimento.

O outro julgava nada saber.

A ânsia era semelhante.

Nessa busca incessante devoravam sofregamente toda a fruta do pomar da vida, ignorando o valor do singelo bago de uva quando lentamente saboreado. 

Assim passeavam-se perto da vida sem a roçar, impossibilitando a absorção de qualquer centelha de felicidade.

Supunham andar de olhos bem abertos e não viam na realidade o essencial.

Sabiam descrever cientificamente a árvore, sem usufruir da frescura da sua sombra ou escutar os segredos recontados pelas folhas e ramos à passagem da brisa e até o piar da ave jovem esfomeada no seu ninho. Não conheciam tão pouco o grito de dor quando os lenhadores a abatem a golpes de machado e, talvez envergonhados do acto, tentam abafar exclamando “madeira” (timber),  a reconhecer ao gigante, mesmo ferido de morte, a capacidade de luta.

Descreviam cientificamente as formigas e os homens, não descortinando afinal que os homens se deslocam como as formigas numa correria em todas as direcções, para cá e para lá.  Só que as formigas sabem para onde vão e os homens nem tanto. Além disso elas deixam o caminho limpo e os homens, por sistema, conspurcam-no

Compadeci-me, como sempre me compadeço quando deparo com alguém que não consegue criar laços. Os laços são essenciais na vida, ténues ou mal apertados que sejam.

Sempre me fizeram falta, cultivo-os quando vale a pena. Amparam a minha solidão. Não passo sem eles. Mas para criar laços é necessário saber cativar (carinho e humildade).

Atenuar aquela situação seria trabalho para a Virtude. Diz o povo que é no meio que ela está.

Perguntei-lhes se a aceitavam. Foram orgulhosos, rejeitaram.  Ficaram sós.

Afinal eram néscios e, como mortais que são, um dia sairão sem as alegrias da partilha



publicado por solcar às 11:45
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