Sábado, 14 de Outubro de 2006
(34) OS SÁBIOS

OS SÁBIOS

 

Privei com dois cientistas tão diferentes e tão semelhantes que não resisto a recordá-los.

Ambos ambiciosos; ambos tristes; ambos esqueciam ser mortais.

Um julgava saber tudo.

Ansioso, continuava  mergulhado na amargura  da busca do conhecimento.

O outro julgava nada saber.

A ânsia era semelhante.

Nessa busca incessante devoravam sofregamente toda a fruta do pomar da vida, ignorando o valor do singelo bago de uva quando lentamente saboreado. 

Assim passeavam-se perto da vida sem a roçar, impossibilitando a absorção de qualquer centelha de felicidade.

Supunham andar de olhos bem abertos e não viam na realidade o essencial.

Sabiam descrever cientificamente a árvore, sem usufruir da frescura da sua sombra ou escutar os segredos recontados pelas folhas e ramos à passagem da brisa e até o piar da ave jovem esfomeada no seu ninho. Não conheciam tão pouco o grito de dor quando os lenhadores a abatem a golpes de machado e, talvez envergonhados do acto, tentam abafar exclamando “madeira” (timber),  a reconhecer ao gigante, mesmo ferido de morte, a capacidade de luta.

Descreviam cientificamente as formigas e os homens, não descortinando afinal que os homens se deslocam como as formigas numa correria em todas as direcções, para cá e para lá.  Só que as formigas sabem para onde vão e os homens nem tanto. Além disso elas deixam o caminho limpo e os homens, por sistema, conspurcam-no

Compadeci-me, como sempre me compadeço quando deparo com alguém que não consegue criar laços. Os laços são essenciais na vida, ténues ou mal apertados que sejam.

Sempre me fizeram falta, cultivo-os quando vale a pena. Amparam a minha solidão. Não passo sem eles. Mas para criar laços é necessário saber cativar (carinho e humildade).

Atenuar aquela situação seria trabalho para a Virtude. Diz o povo que é no meio que ela está.

Perguntei-lhes se a aceitavam. Foram orgulhosos, rejeitaram.  Ficaram sós.

Afinal eram néscios e, como mortais que são, um dia sairão sem as alegrias da partilha



publicado por solcar às 11:45
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6 comentários:
De MARICEL a 16 de Outubro de 2006 às 07:28
Concordo
O facto de se ter que trabalhar um pouco, (CONQUISTAR), para se conseguir uma coisa, qualquer coisa, - no campo emocional ou no campo material - esse trabalho, que pode ser com maior ou menor grau de dificuldade - o prazer por ter conseguido chegar lá será muito maior.


De preconceitos a 16 de Outubro de 2006 às 16:09
Eu tinha percebido pelo texto.
Apesar da dificuldade, conseguir, não garante só o prazer é também uma mais valia para a continuidade.


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